12 fevereiro, 2006

Carmelinda e Tiago responderam logo ao apelo e, em pouco tempo, estavam todos reunidos em casa de Rafael. Horácio estava com um ar muito sério e iniciou a conversa:
"Estive a delinear um plano, baseado no que eu sei que o Rafael conhece da cidade. Acho que o melhor será os quatro adultos separarem-se, seguindo trajectórias diferentes. Mariazinha, tu ficas aqui em casa e, de hora a hora, todos nós te telefonamos para dizer onde estamos e se temos novidades. Vais ser o posto de controlo." Ao dizer isto, Rafael sentia que estava em mais uma simulação dos tempos do exército. Mas, desta vez, era a sério.
A mãe já em casa telefona primeiro à polícia. Mas, obviamente a polícia nada pode fazer por não se tratar de um caso de rapto. Gertrudes, sem se lembrar que se tinha identificado, alcunha o polícia com todos os adjectivos do mais ordinário possível. De seguida liga para os tios do Rafael para contar o que se tinha passado.

11 fevereiro, 2006

Ainda a gemer de dores, mais do pontapé do que do murro, o pai levantou-se e começou a tentar imaginar onde Rafael se refugiaria se fugisse de casa. Todos os recantos da cidade que o filho conhecia, lhe tinham sido apresentados por ele. Tentou rever todos os passeios de fim-de-semana, as aulas de história (a maioria aldrabadas, é verdade, porque nunca fora um aluno atento na escola), as reacções do rapaz aos lugares novos que ia conhecendo.
Horácio com a sua calma alienada habitual, disse
"Tem calma amor. Ele volta quando ele tiver fome volta."
Gertrudes começa a ficar vermelha e a tremer. Dá-lhe um murro no meio no nariz, que o deixa com lágrimas nos olhos, seguido de um pontapé no meio das pernas. Deixando Horário prostrado no chão cheio de dores.
O vermelho ia desaparecendo à medida que Gertrudes se dirigia para casa.

10 fevereiro, 2006

"Horácio, vai atrás dele!", gritou Gertrudes. "Não lhe vai fazer bem andar na rua."
"Ó filha, então queres que vá para a rua de chinelos?"
A resposta não tardou. Gertrudes puxou pelo marido e arrastou-o para fora de casa. Ao chegarem à rua, já não conseguiram ver Rafael.
"E agora, Horácio?", disse ela, levando as mãos à cabeça, com lágrimas nos olhos. "Ele não está bem e vai-se perder por aí."
"Mas e então o sangue azul?" ainda sem saber o que se passa
"Sangue azul?" o pai ri-se mas desfaz de seguida o riso pois o filho não tinha achado piada nenhuma.
Passa a mão pelo queixo "Onde está Hert, a Mini e o caracol?"
"Ó filho, se calhar é melhor ires já para o hospital."
"Não posso." levanta-se da cama e sai para a rua a correr.

09 fevereiro, 2006

Rafael sentiu-se perdido. "Onde estão todos?", perguntou.
A expressão do pai mudou de gozo para preocupação. "Todos? Os teus tios? Já foram para casa. Há dois dias atrás..." Deixou a frase em suspenso e olhou para Gertrudes.
"Estiveste no hospital, filho." Gertrudes tentou manter a voz calma. "Depois de te cortares, desmaiaste e, como não te conseguíamos acordar, levámos-te para o hospital."
A mãe de repente olhou para Rafael e mudou de humor. Com um ar muito irado mas serenamente disse
"Ainda estás a dormir?"
Rafael indignado franze as sobrancelhas.
"A dormir?"
"Sim, já são horas de..." quando dá um pulo da cama e vê de novo a mãe e o pai ao lado dele no quarto dele.

08 fevereiro, 2006

Jika arregalou os olhos ao ouvir a resposta ríspida e deu uma cotovelada a Hert, mas, antes que qualquer um pudesse fazer alguma coisa, Rafael já estava a saltar para os braços de Gertrudes.
"Rafa, meu querido! Esse abraço tão apertado é de saudades?", disse-lhe ela. "Agora vais ter algum tempo para me contares as novidades todas. E deixa-me lá olhar para essa cara para ver se a notícia que corre por aí é verdade."
Rafael largou-a e pôs-se à sua frente.
"Ah! Não é que o rapaz tem mesmo um cristal no queixo?!" A primeira reacção foi de Aisha.
“Sim, mas quem é que estava a dizer que eu estava a pensar que era um jantar de reis e rainhas?” conclui Rafael. “Mãe!” e acena.
Jika aproxima-se de Rafael e repete “E não te esqueças que aqui tens que a tratar pelo nome porque não há cá mães nem pais nem primas. Portanto Gertrudes.”
“Mas qual é o problema de tratar a minha mãe por mãe se ela é minha mãe?” diz Rafael todo irado.

07 fevereiro, 2006

Respondeu ele, enquanto se dirigia para Hert. "Desculpa, Hert, também há regras para o banquete? Gostava de me sentar ao pé da minha mãe."
"Sentar?!", Hert soltou outra das suas gargalhadas secas e sonantes. "Com certeza não estás à espera que seja um jantar como os que vês nos filmes de reis e rainhas. Como tudo o resto, um banquete organizado por Uualis é muuuito especial."
Jika interveio: "Mais vai lá para o pé da Gertrudes. E não te esqueças que aqui tens que a tratar pelo nome porque não há cá mães nem pais nem primas."
"Mas… mas… eu não tenho tempo para isso. A informação é muita e tem de ser confirmada duas vezes e testada." gagueja Byron com medo da reacção de Hert.
Hert pára e olha para ele, como se o fosse fulminar com o olhar.
"Sim. Então vem também comer. Pois com comida nos estômagos pensa-se melhor."
E assim foram todos andando para o banquete.
"Byron, vai me falando por alto do que tu leste sobre os cristais-de-mudança."
A Mini ia com o Rafael quando avistou a mãe dele. Deu um toque ao Rafael.
"Sim, já a tinha visto."

06 fevereiro, 2006

"Eh lá! Com esta conversa distraí-me mas ainda bem que os meus quatro estômagos estão sempre alerta. Está na hora do grande banquete!"
Os Mëurits que ainda não conheciam bem Hert ficaram espantados com aquela mudança súbita de humor. O gigante já não apresentava o sobrolho franzido mas sim um sorriso de orelha a orelha. Hert dava grande importância ao banquete por ser um acontecimento muito típico do seu povo e porque a presença de Mëurits novos todos os anos fazia com que houvesse sempre surpresas.
"Byron, desculpa, mas preciso de te pedir que procures toda a informação existente sobre Muriat ainda antes do banquete." Levantando a voz, continuou "Os outros, sigam-me!"
"Finalmente alguém ouve as minhas preces, porra! Vamos lá investigar esses aparecimentos e o real potencial que os Mëurits e todos nós podemos tirar daí."
Todos se viraram para Rafael, agora que o cristal se tinha desenvolvido até à sua fase final. Era bem grande, quase ocupando todo o seu queixo.
Hert levanta os braços e diz muito certo.
"Todos os Mëurit que não tenham cristal saiam." esperou que todos saíssem "Aproxima-te, Rafael. Jika leva-o para a tua sala de testes. E Byron vai à procura dos outros e leva-os até Jika."
Jika e Byron já se iam embora quando Hert diz.

05 fevereiro, 2006

"É o típico super-herói", disse Hert, sorrindo. "Bem, eu sei que alguns de vós não vão concordar, mas sugiro procurarmos Rusha, apresentá-lo ao jovem Mëurit Rafael e estudarmos os dois de perto, para tentarmos comprender melhor este fenómeno do aparecimento inesperado dos cristais-de-mudança."
Assim que acabou de falar, Hert olhou respeitosamente para Jika, já prevendo a sua resposta, mas, ainda antes de cruzarem olhares, ela já estava em pé, com os olhos muito abertos.
"Já sei quem é esse Rusha." disse confiante Hert "Ó Jika, não te lembras quando estávamos a delinear o plano de treinos deste ano, no bar do teu primo, quando salta, da mesa ao lado, um rapaz com rastas longas e salva uma rapariga que se tinha atirado de um edifício?"
Jika de olho abertos "Sim, lembro-me de só sentir um vento e depois o ver do outro lado da rua com a rapariga nos seus braços incrédula."
"É esse mesmo." afirmou Byron.

04 fevereiro, 2006

"Dentro do coração? Se não se vê, como pode alguém afirmar que ele tem um cristal-de-mudança?", indagou a incrédula Jika, com a sua voz esganiçada.
Byron continuou: "Bem, todos sabemos que os cristais-de-mudança estão associados a características extraordinárias, geralmente adquiridas após anos de treino e, nestes casos especiais, por razões desconhecidas. Rusha era um rapaz muito apático, nada interessado nas provas nem em nada relacionado com o nosso povo e, naquele dia, parecia uma pessoa diferente.
"E essa Rusha, quem é?" pergunta outro ancião.
"Rusha é o caso que ainda está por desvendar. Trata-se de um rapaz alto, com dois metros e meio de altura, com uns braços longos que quase arrastam no chão. Normalmente está sempre a dormir enroscado num tapilho, que mal dá para ele."
"E ele tem o cristal-da-mudança onde?" pergunta Hert.
"Supõe-se que sim. Os médicos-anciões dizem, se ele tem, encontra-se no centro do seu coração."

03 fevereiro, 2006

"Fala-nos sobre o que leste, Bryon!", esclamou Hert entusiasmado e impaciente.
"Bem, no livro falam de 3 casos semelhantes conhecidos, um deles ainda por desvendar. Parece que, há uns 1000 anos atrás, foi encontrada uma jovem a viver sozinha nas florestas nórdicas com um cristal cravado junto ao canto do olho. O seu nome era Ruriem e tinha aprendido sozinha a controlar o seu dom. Veio a criar um lar para acolher Mëurits. Uns séculos mais tarde, durante as provas, um outro Mëurit, Muriat apareceu com o cristal na orelha. A sua história não acabou tão bem. Foi o primeiro caso de violência registado no nosso povo. Ao tentar assassinar Guual, foi morto por Rusha."
Hert afasta-se e reúne-se com os seus conselheiros.
Em voz baixa inquire-os:
"É meu engano ou só nós é que podemos dar o cristal-de-mudança? Algum de vocês lhe deu o cristal?"
Os conselheiros dizem que não com a cabeça, ao mesmo tempo que olham uns para os outros, tentando descobrir quem é que foi.
"O cristal-de-mudança não pode ter ido lá parar sozinho. Alguém foi."
"Hert" diz um dos conselheiros mais novos "Eu há pouco tempo estive a ler o livro Cor-de-Rosa e lá dizia que em casos raríssimos poderia aparecer o cristal-de-mudança."

02 fevereiro, 2006

Instintivamente, Rafael pôs a mão no queixo e, ao sentir algo frio e estranho ao seu corpo cravado na pele, deu um salto na cadeira e gritou:
"O que é isto?! Tenho um piercing espetado no queixo! Como é que veio cá parar?"
Hert havia-se aproximado deles. "Não é um piercing, é um pequeno cristal-de-mudança. Vejo que já tentaste comunicar por telepatia. Vais no bom caminho, jovem Mëurit."
E sentiu um beijo na testa, muito parecido ao que a mãe costumava dar.
Fecha os olhos por instantes e quando os abre repara pelo canto do olho que a Mini está a olhar de forma estranha para Rafael.
“Está… está… está… é azul, verde… azul… azul” Mini estava atrapalhada com o que via a nascer no queixo de Rafael.
“Que é que foi? Parece que está drogada. Tenho alguma coisa na testa é?” Lá do fundo, a voz de Hert “Sim, Rafael. Tens qualquer coisa.”

01 fevereiro, 2006

Rafael colocou os dedos por baixo do nariz, mas não estava a perder radeï.
"Não te preocupes, ele só fez com que acreditasses que te estava a acertar. O Hert é incapaz de fazer mal a quem quer que seja."
Era a voz da mãe. Olhou para todos os lados. "Se ao menos a conseguisse encontrar no meio destas cabeças todas.", pensou, triste. Contorcendo a cara, concentrou-se e tentou enviar telepaticamente uma mensagem de volta à mãe. "Tenho saudades tuas."
"Sim dormir." returque indignado "Dormir, descansar, olhar para a parte dentro das pálpebras. Não sabes o que é isso?" ele pára de repente e olha para a Mini "Cristais-de-mudança? O que é isso? Tens aí? Mostra-me!" diz Rafael muito stressado.
"Que foi? Não foste buscar os cristais como Hert mandou?"
Um som de algo a voar alimentou o ouvido de Rafael. Olhou em frente e já estava a apanhar com o pau de marmeleiro de Hert.
"Calou aí atrás! Ou tenho de atirar o pau?" disse ironicamente com um sorriso esboçado no rosto.

31 janeiro, 2006

Rafael olhou para a direita e reconheceu a sua nova amiga.
"Olha! Mini, ficaste outra vez ao meu lado."
"Olá, Rafael."
"Então, como te correram as provas?"
"Bem, mas não estava a contar com esta notícia. Ninguém tinha falado que só seriam entregues dois cristais-de-mudança. Mas não podemos desmoralizar já porque as provas ainda não acabaram. Ainda faltam as de línguas, comunicação, telepatia e capacidades psíquicas."
"Então, e dormir?!", disse Rafael de olhos arregalados.
"Dormir?" A rapariga à sua esquerda riu-se da ingenuidade do rapaz.
Hert levantou um pau de marmeleiro. O pau de marmeleiro mais direito, ele nunca tinha visto.
Com uma voz imponente, daquelas que fazem abanar tudo o que é pilar e parede.
“Calem-se! E sentem-se!” toda a gente obedeceu às suas ordens. “Só dois de vocês vão ser
Uualis, o resto vai continuar a ser Mëurit. Só com grande esforço é que esta estatística pode subir.”
O burburinho é geral.
“Isso, olhem para o vosso lado, podem estar a olhar para um futuro Uuali ou para um Mëurit. Ser Mëurit não quer dizer que sejam falhados, apenas são talhados para o serem.”

30 janeiro, 2006

Ao descobrir o que era o Pavilhão de Cristal, Rafael não conteve um suspiro de desilusão. À sua frente, elevava-se uma gigante rocha acinzentada. "O cristal dos Mëurits é muito diferente do dos Humanos. Que monstro tão feio!", pensou.
Ao ver que era o único cá fora, deu uma pequena corrida. Mais uma vez, fui surpreendido pelo interior do edifício. O que parecia rocha por fora era, afinal, mesmo feito de cristal por dentro. O interior estava iluminado pela luz que entrava pelas paredes que, ao contrário do que aparentavam, não eram ocas mas completamente transparentes, permitindo ver o exterior. Parecia que estavam mesmo dentro de um cristal gigante. A luz era reflectida várias vezes pela estrutura multifacetada.
Lá foi ele a arrastar os pés, cabisbaixo. Por cada meia dúzia de passos que dava, olhava uma vez para trás. Parecia que era a última vez que iria ver a mãe ou que ia para o corredor da morte.
A mãe faz um gesto com a mão em sinal de seguir em frente, para lhe dar força.
"Não sei o que deu àquele rapaz, parece que não está a gostar da ideia de ser Mëurit." diz olhando para a Aisha "Lembro-me que, quando fiz estas provas, foi um dos melhores dias para mim."
Aisha retorce e rodopia os olhos "Sim, sim, quando eu fiz as provas rasguei as meias." diz entre dentes.
"Olha Aisha, quando fiz a prova do Cume da Árvore até rasguei as meias." E desata-se a rir como uma perdida, enquanto Aisha continuava a retorcer e rodopiar os olhos.

29 janeiro, 2006

Gertrudes estava um pouco longe mas conseguiu ouvi-lo chamar. Ainda antes de conseguir dizer "Rafa!", já ele estava a abraçá-la.
"Então, filho, como estão a correr as provas? Tens tido muitas aventuras?"
"Mãe, que saudades. Parece que passou uma semana. Foi a primeira noite que dormi fora de casa.", disse ele sem respirar no meio.
"Uma noite?!", disse a mãe, rindo. "Para mim só passaram três horas. Não te esqueças que aqui o tempo é relativo. Mas olha que o Hert é muito rígido em relação a atrasos e ele controla o tempo acima de todos nós."
Rafael torceu o nariz. A mãe deu-lhe uma palmada leve no rabo e continuou "Vá, depressa, para o Palácio de Cristal. Encontramo-nos lá, mais tarde."
Ele não foi atrás deles, mesmo desprezando os conselhos do pequeno caracol que insistia para que ele ainda não fosse à procura de sua mãe. Cego por querer ir ter com a mãe, Rafael não ligou nenhuma.
“Onde vais Rafael? Então não vais pa…” disse a Mini, mas como ele ia a correr, mesmo olhando para trás não conseguiu ouvir o resto da frase.
“Para o Pavilhão de Cristal, para Hert ver que animais e plantas os Mëurits têm.” vindo da voz do fundo da bolsa de lã, Schmmli completou a frase inacabada de Mini.
“Não quero saber, só quero ver a minha mãe.”
“Mas devias querer saber.”
“Cala-te!” aí estava ela “Mãe!”

28 janeiro, 2006

"Espera Rafael!", gritou a flor.
Quando o rapaz regressou para o pé dela, Petless fechou as pétalas em botão e, ao voltar a separá-las bruscamente, lançou no ar uma bolsinha muito amarela, que Rafael apanhou do chão.
"Embrulhado nessa pétala, está algum do meu pólen. Tem propriedades extraordinárias que virás a descobrir à medida que te for necessário recorrer a elas. Mais não direi. Guarda-a cuidadosamente e não contes a quem não seja da tua confiança."
Rafael acariciou-lhe as folhas em agradecimento e partiu a correr, seguindo o caminho que se ia abrindo à sua frente.
Ao sair do jardim, reparou que a maior parte dos Mëurits já se dirigiam para um outro pavilhão, redondo e que parecia transparente por reflectir o céu e o campo à sua volta.
“Vamos fazer deste Mëurit o maior Uuali do mundo!” Petless abana-se toda e diz, contente e esperançoso, “Eu gosto dele. Mesmo que me tenha acordado.”
Schmmli entra e sai rapidamente da sua casca, consigo traz uma bolsa de lã forrada a caxemira, um pouco maior que ele, e entrega-a a Rafael.
“É para tu me transportares mais facilmente para todo o lado.”
Rafael pega na bolsa. Pega em Schmmli e coloca-o dentro da mesma.
“Petless, tu estás sempre aqui ao meu dispor, certo?” diz Rafael já a pensar só na mãe.
”Sim” diz muito secamente Petless.
Rafael vira as costas e leva a bolsa na mão à procura da mãe.

27 janeiro, 2006

O caracol tomou a palavra:
"Eu vou ser a tua companhia, o teu guia e o teu instrutor durante o período de provas." Olhando para a planta, acrescentou em tom provocador "Dia e noite."
"Isso quer dizer que vais passar a andar sempre comigo, como o Grilo Falante andava com o Pinóquio? Mas vais ter que andar sempre na minha mão ou no bolso, porque a minha maior qualidade é ser rápido e não quero que me atrases."
"Isso é outra história. Não mistures personagens. É mesmo por seres tão rápido que o teu animal é um caracol. Eu vou garantir que estás atento aos pormenores e que desenvolves as tuas outra capacidades. Mas só durante as provas. A tua educação e preparação durante o resto do tempo estão a cargo do teu Uuali."
Rafael com ar meio indignado, pois Petless primeiro tinha-lhe dado com o ramo na boca e agora está toda simpática.
"Eu é que faço a pergunta ao contrário. O que é que tu podes fazer por mim? Ou porque é que eu preciso de uma planta? Ou mesmo de um caracol?"
Os dois seres olham para ele e começam a refilar não se percebendo o que estavam a dizer, pois estavam os dois aos berros e a falar ao mesmo tempo.
"Esperem!" gritou Rafael para os calar. Depois de calados continuou "Fale um de cada vez e sem ser aos berros. Esta pergunta não era para vos deitar abaixo. Era só para perceber para que preciso de vocês."
A planta mais expedita responde "Tu precisa de mim para quando está mais em baixo para te vires confessar e para tirares dúvidas sobre a tua condição nova."
Petless dá a palavra ao Schmmli, inclinando-se para ele.

26 janeiro, 2006

"Já é noite!", disse Rafael, acordando estremunhado.
"Ora, então, boa noite, meus senhores!", continuou amavelmente a planta, "Em que posso ser-vos útil?"
Foi Schmmli quem prontamente respondeu:
"Olá, Petless, este é o Rafael, um Mëurit novo nas provas, que veio à tua procura."
Na sua condição de ser vegetal sem cara, a planta tomou uma expressão corporal dramática.
"Oh, já começaram as provas? Como o tempo passa. Parece que ainda ontem esteve cá aquele pequeno sardento. Ouvi dizer que já é Uuali. Sou mesmo uma boa ajuda!"
O caracol revirou os olhos. "Petless, adiante. Tens agora uma nova oportunidade de provar se és assim tão boa."
"Humpf! Bichinho mal-humorado. Bem, Rafael, o meu nome é Petless. Sou uma Tagarelis lazulis, da família das Comprinidae. Temos a característica especial de nos conseguirmos esticar muito, tanto física como mentalmente."
"Tu sabes que isso requer muitos anos de prática, mas posso te ensinar um método básico de leitura de pensamentos. Não consegues ler tudo e por vezes é incoerente."
"Então deixa estar. Só quero que o Sol se ponha para falar com a plantinha, e se quer vir connosco venha. Quero ir ter com a minha mãe."
Rafael coloca a cabeça entre as pernas e fecha os olhos. Schmmli desliza da mão dele e fica entre os dois pés.
"Não falta quase nada para o Sol se pôr."
Mal acaba de falar, o Sol "cai" a pique para o horizonte pelo meio de duas grandes sequóias.
"Então, já estás mais calado?" diz a planta enquanto se espreguiça e se sacode.

25 janeiro, 2006

"Estás a tentar comunicar com ele?", perguntou Aisha. "Sabes bem que os meses que passaste longe do teu mestre, Örrem te fizeram regredir no conhecimento. Acho que ele já chegou à conferência. Está na altura de iniciares os teus treinos e provas. Vai, filha." Gertrudes afastou-se, sem responder.
Na floresta, os dois novos amigos continuavam à espera que o Sol caísse. "Cair" era o termo certo, uma vez que assim que atingia a altura máxima, a hora de maior calor, o Sol punha-se rapidamente.
"Schmmli, podes ensinar-me a ler pensamentos ou, melhor ainda, a falar por pensamento?", perguntou Rafael. "Tenho saudades da minha mãe."
Assim o fizeram, quando já sentados Rafael começou a contar como tinha sido estranho o seu dia começando com o café com a mãe, passando pela perseguição do Jupel, entrando na Floresta de Wrelang e agora estar a falar com um caracol e ter estado a falar com uma árvore. “Isso é bastante normal.” responde o Schmmli. “O que é que vamos fazer mais?” pergunta Rafael muito curioso. “Não faço a mínima ideia, já estou há muito tempo à espera do meu Mëurit. Tu.” diz com um discreto sorriso nos lábios.
A mãe tinha ficado a falar com a Aisha. Ela muito ansiosa com medo que o filho falhe em alguma coisa. “Será que a esta altura ele já encontrou a sua planta?” “Vocês, Mëurits, são todos ansiosos, têm de ter mais calma, é por isso que nunca hão-de ser Uuali.” Gertrudes nem ouviu e tentava ver, impossivelmente, o seu filho querido.

24 janeiro, 2006

"Schmmli, desculpa a sinceridade, mas porque é que eu preciso de uma planta gigante que dorme o dia todo? Não podemos ficar aqui à espera que anoiteça. Já passaram mais de duas horas desde que comecei a explorar a floresta. Em breve, tenho que ir à procura do ponto de encontro com Hert."
Desta vez foi o caracol que soltou uma sonora gargalhada, demasiado sonora para o seu tamanho.
"Ó pateta, então tu achas que os Uualis medem o tempo da mesma maneira que os Humanos? Aqui o tempo é relativo. Se ele vos deu três horas para explorar a floresta, as tuas três horas acabam quando tiveres terminado a tua tarefa. Senta-te aqui à sombra porque o Sol é mais forte nos minutos antes de se pôr."
"Tens uma piada louca." disse Schmmli com desprezo sem olhar para ele. Rafael começou a rir e o riso cada vez mais alto.
"Olha, caracolinho, tu és…" entretanto uma ramada de uma planta lazúli, como um chicote, bate-lhe na boca com toda a força, deixando-lhe o canto da boca a sangrar um bocado.
"Estás a fazer muito barulho. Nós precisamos de dormir."
Schmmli ia começar a rir mas de imediato falou.
"E ele precisa de ti!"
O ser lazúli ergue-se dos seus dois centímetros até a uma altura de quase quatro metros, baixando-se dizendo ao ouvido de Rafael.
"Eu sou uma planta noctívaga, portanto volta ao anoitecer e aí falamos." Enquanto baixava para a sua minúscula altura disse "Traz também o Schmmli e limpa essa boca." e num instante fecha o olho e adormece.

23 janeiro, 2006

"Claro que sim.", respondeu o caracol calmamente. Rafael reparou que o seu novo amigo tinha mudado de cor. Agora estava branco com pintas verdes.
"Tu mudas mesmo de cor. Tenho que decorar a que estado de humor corresponde cada uma.", comentou o rapaz. "Em relação às plantas, deves saber que eu só conheço as espécies que existem no mundo dos Humanos. Como é que posso descobrir qual é a planta desta floresta que está relacionada comigo?"
Enquanto conversando, Rafael foi andando com Schmmli sobre a palma da mão, entranhando-se cada vez mais na floresta. Pelo caminho, cruzou-se com outros Mëurits, uns acompanhados por animais muito estranhos e de cores garridas, outros com flores, árvores e arbustos que caminhavam ao seu lado.
"Ah! As plantas andam!", exclamou. "Se calhar, a minha planta é a que correr mais depressa." Olhou para a mão. "Ou a mais lenta."
“Vieste em boa altura, vais-me ajudar a procurar a minha planta. Boa?”
Rafael todo animado pega no caracol com a mão e todo contente começa à procura da planta.
“Ouve lá, ó Mëurit aluado, sabes de que é que andas à procura?” dando um berro para o chamar à Terra.
E Rafael responde de imediato
“Da minha planta.”
Schmmli com uma voz mais calma volta a perguntar.
“Sabes qual o aspecto da tua planta?”
Rafael pára de imediato e começa a perguntar-se como é que…
“… é o aspecto da tua planta?” Schmmli acaba a frase pensada por Rafael.
“Não sei, mas sei que me vais ajudar.” Diz baixinho. “Sim?”

22 janeiro, 2006

"Três horas", pensou o rapaz, "Será que chega para encontrar a minha planta? Com a sorte que tenho, deve ser uma erva daninha metida nos confins desta floresta."
"Mas que comentário tão desagradável", ouviu uma voz esganiçada e afectada dizer. Como o som lhe parecera vir de baixo, olhou para o chão e qual foi o seu espanto quando viu o caracol mais ridículo que até aí imaginara. Era amarelo, listrado em vários tons de rosa, do tamanho de um punho fechado e com grandes olhos pestanudos. Parecia tirado de uns desenhos animados para crianças de quatro anos.
Reagindo ao ar estupefacto de Rafael, o animal continuou "Sim, fui eu que falei e, sim, também leio os pensamentos. Vais acabar por descobrir que é uma capacidade que se desenvolve ao longo do processo de aprendizagem de um Mëurit. Se estás espantado com as minhas cores exuberantes, aprende já que quando mudo de humor, mudo também de cor."
"Mas quem és tu?"
"Chamo-me Schmmli e venho em teu auxílio. Pareces-me um pouco desanimado."
Rafael não andou muito até descobrir o seu animal, o caracol, pensou de imediato "Mas se eu corro que nem um leopardo, como é que o meu animal é o caracol."
"Como eu estava à espera." diz Hert nas costas de Rafael. "E tu deves estar a pensar que tu corres como um leopardo, como é que o teu animal é o caracol? Certo?"
E vem de Rafael um sim muito admirado e baixo.
"É que eu leio os pensamentos de outros." e pisca o olho "E o caracol por ser um animal lento dá-te algum atrito e reflexão em pensamentos rápidos."
Rafael explora mais a floresta até que ouve Hert a dizer que todos os Mëurits têm três horas para explorar a floresta.

21 janeiro, 2006

"Não", respondeu secamente, "É o diminutivo de Hermínia. Engraçadinho... Vá, segue-me. Tenho mais experiência que tu nas provas e a tua Uualis pode não estar sempre por perto para te safar."
Hert virou-se repentinamente para trás e varreu o grupo com um olhar que claramente dizia "Agora quero todos calados". "Para aquela expressão não é preciso tradução", pensou Rafael.
O guia começou o discurso "Mëurits, vão agora iniciar uma nova prova, a qual é muito importante para ajudar os revisores a traçarem o vosso perfil. Aqueles para quem esta prova não é novidade deverão permanecer na antecâmara até serem chamados. Os outros, sigam-me."
Rafael assim fez e ao passar a porta alta e estreita que separava a antecâmara da ala seguinte não conseguiu conter um "Wow!" que se foi repetindo à medida que todos os Mëurits novatos entravam. Virou-se para falar com Mini, mas ela já não estava ao seu lado. "Parece é verdade e não se estava a gabar quando disse que era mais experiente. Ficou fora desta sala."
"Benvindos à Floresta de Wrelang ou Floresta de Água. Vão agora descobrir a fauna e flora que Guual e Wuual criaram. Cada um deverá descobrir o animal e a planta ao qual estão ligados."
Muitos tiros depois, um a um foram largando a zagua e começaram a atirar com a besta. Rafael reparou que durante o exercício a rapariga que aparentava ter três anos era exímia na arte do tiro.
O exercício acabava para toda a gente. E todos seguiram o orientador, que nas costas tinha o seu nome com letras góticas: Hert.
"De onde vieste?" Rafael pergunta à rapariga.
"Sou tua vizinha, só que tu não deves ter reparado porque só há pouco tempo larguei o carrinho de bebé. Chamo-me Mini."
Rafael ri-se e comenta "É pelo teu tamanho que tens essa alcunha?" e desata-se a rir.
Mini olha para ele com um ar muito sério.

20 janeiro, 2006

Rafael estava tão admirado com todo aquele espectáculo que demorou a reagir à ordem. Por todos os lados só via clarões de luz e Mëurits a correr. Quando se queria desviar dos clarões, parecia que o corpo não obedecia mas os clarões desviavam-se sozinhos. E assim que pensava que tinha que disparar, os dedos accionavam a zagua antes que ele tivesse tempo de fazer pontaria.
"Concentração, concentração", pensava, "Tenho que me concentrar e controlar os movimentos. Vou imaginar que estou num deserto sem nada à volta, só o alvo à minha frente." E foi parar ao lugar que tinha imaginado, sem ninguém à volta nem clarões a encandeá-lo. "Fantástico! Podemos criar a nossa própria realidade virtual."
"Eu tenho uma dúvida." diz Rafael "Eu não sei o que é uma zagua."
Quem os estava a orientar returque muito seco.
"Ó Mëurit, pega na zagua." Faz uma pausa para que Rafael pegue nela. "Já sabes como se utiliza. Ainda bem." Foi de imediato, mal Rafael pegou na zagua parecia que já a tinha utilizado. "Só tens que acertar no centro. Mais alguma dúvida? Peguem nos instrumentos. Podem disparar à-vontade até ficarem sem munições."
A rapariga que aparentava ter três anos pegou primeiro na besta e a voz do orientador volta a levantar-se.
"Primeiro a zagua!"
Larga de imediato a besta e pega na zagua.
"Disparem. Já!"
Quando os paus de mogno saíam das zaguas libertavam um odor muito mau, mas os arcos ovais que formavam à saída eram dignos de um um grande espectáculo.
"Eu disse para acertarem no meio!" lá está aquele orientador a gritar.

19 janeiro, 2006

O grupo de concorrentes foi dirigido a um pequeno pavilhão branco. Lá dentro depararam-se com uma sala em cone invertido com cadeiras que pareciam cadeiras de dentista, como se ouviu os novatos comentarem entre dentes, dispostas lado-a-lado, em espiral, até ao fundo.
Mais uma vez, foi a voz cavernosa fez-se ouvir claramente. "Mëurtis, ocupem os vossos lugares."
Rafael pensou "Sei lá onde é o meu lugar", mas, antes de acabar, estava sentado entre um homem que parecia ter uns 90 anos e uma menina que não tinha mais de três.
"Para quem é novo, vou explicar as regras desta prova. No mundo dos Humanos, seria comparável a uns jogos olímpicos em realidade virtual. Terão que manusear a besta e a zagaia com perícia em testes que lhes serão apresentados à medida que jogam. Isto tudo sem sairem das cadeiras, num mundo criado por cada um de vós. Estaremos a testar a vossa capacidade de concentração, abstração e visualização no espaço. Fechem os olhos."
"Mas se eu corro rápido porque é que eu não o hei-de fazer?" defende-se Rafael.
Aisha mais calma explica "Não fizeste mal em correr rápido, mas para a próxima tenta dar um pouco de espectáculo. Não estou a dizer que não foi espectacular, mas podias ter abrandado no obstáculo de fogo, dá sempre uma imagem bonita se fores inteligente."
"Vai Rafael, que eles já acabaram a corrida." disse a mãe confiante "Acho que a seguir é o tiro com a besta e com uma zagua."
Rafael afastara-se enquanto as duas falavam entre si.
"A zagua no meu tempo era à noite, surtia efeitos mais engraçados." diz a anciã.
"Outros tempos, outros tempos." diz com saudade Gertrudes.